Feeds:
Posts
Comentários

Assim eu ouvi:

Estava o Abençoado – já adentrado em anos – caminhando no Bosque de Upavartana, em companhia de seu dileto discípulo Ananda, quando subitamente sentiu-se fatigado. Deitou-se um pouco para descansar, com Ananda a seu lado. Após um tempo, sentiu-se melhor e levantou-se. Um pouco mais adiante na senda, o Venerável voltou a parar, fatigado. Logo após algum tempo em descanso, levantou-se. Então, pela terceira vez, sentiu-se muito cansado, e Ananda, aflito, o ajudou a deitar-se à sombra de uma árvore. O Abençoado então disse a seu discípulo:

“Busque meus discípulos e reúna-os à minha volta, pois o Tathagata em breve terá sua personalidade extinta”.

Quando os discípulos se assentaram, disse o Buda muitas coisas sábias, e então disse a Ananda, mas falava para todo o Sangha:

“Preguei o Dharma sem limites entre o oculto e o revelado, pois no tocante à Verdade o Tathagata não tem nada que se assemelhe ao punho cerrado de um instrutor que oculta alguma coisa.

“Já sou velho, Ananda, tenho oitenta anos e termino meus caminhos e meus dias; assim como uma velha carroça que vagamente roda na estrada, assim meu corpo se sustenta com muita fragilidade. Meu corpo só está bem quando mergulho no equilíbrio da meditação.

“Por isso, monges, permanecei na Senda, e assim deveis vos guiar pelos Preceitos. Que o Dharma e as regras do Sangha sejam vosso mestre quando eu partir; e que o Sangha saiba derrogar, se convier, os preceitos de pouca importância. Se conseguirdes guardar bem os preceitos, disso resultará a Boa Lei. Se não conseguirdes guardar de forma correta o sentido dos Preceitos, então seus pretensos atos de benevolência serão destituídos de méritos reais.

“Assim, pois, Ananda, sede vossas próprias lâmpadas. Apoiai-vos em vós mesmos e não em nenhum sustentáculo externo. Sustentai-vos apenas na Verdade. Que ela seja vossa bandeira e refúgio”.

Dirigindo-se à assembleia, perguntou:

“Se ainda entre vós alguém abriga dúvidas, que a exponha livremente, pois meu tempo de responder a todas as dúvidas está encurtando”.

Ananda disse, após um período:

“Certamente, dentre os que aqui se encontram não há ninguém que abrigue dúvidas ou receios acerca do Buda, do Dharma e da Senda”.

Então, o Abençoado proferiu suas últimas palavras:

“Decadência é inerente a todas as coisas existentes, porém o Dharma perdurará eternamente. Busquem com afinco por sua libertação”.

Neste momento, o Buda entrou em meditação, e expirou tranquilamente.

 

 Contos Zen – Aoi Kuwan

Certa vez, um monge perguntou a Li-chan:

“Se todas as coisas se reduzem em última análise ao Vazio, este a quê se reduzirá?”

Respondeu o mestre: Continuar Lendo »

utsurobune02Aisatsu yo~

A lenda de Utsuro bune chega até nós através de dois livros de contos publicados logo depois do shogunatsu, o período das guerras civis no Japão, durante o Período Edo: “Toen Shousetsu” editado em 1825, e “Ume no Chiri”, em 1844. Em ambos, encontramos a história de uma mulher estrangeira em um barco oco (utsuro bune). Quem seria essa misteriosa figura feminina que desembarcou em terras japonesas em um estranho meio de transporte? Continuar Lendo »

Um monge perguntou a Hui-neng (o Sexto Patriarca Zen):

“Quem herdou o espírito do Quinto Patriarca?”

Hui-neng respondeu:

“Aquele que compreende o Budismo”. Continuar Lendo »

Chao-chou perguntou a um monge recém-chegado a seu mosteiro:

“Já estivestes antes aqui?”

“Sim, senhor”, respondeu o monge, “já estive no verão passado”.

“Ah! Então entre e tome uma xícara de chá”, disse o mestre, feliz. Continuar Lendo »

Hsiang-yen foi discípulo de Pai-chang. Era uma pessoa muito inteligente e sempre confiou na presunção de que se estudasse e absorvesse todo o conhecimento dos termos e textos budistas, seria um entendedor do Zen. Após a morte de seu mestre, ele dirigiu-se a Kueishan – que era o mais antigo discípulo de Pai-chang – para que este lhe orientasse. Mas Kueishan comentou:

“Soube que estiveste sob a orientação de meu antigo mestre e falaram-me de tua notável inteligência. Tentar compreender o budismo através deste meio leva geralmente a uma compreensão analítica, que em si nada tem de útil, mas que pode indiretamente levar o praticante a uma intuição do sentido Zen. Por isso, eu lhe pergunto: como tu eras antes de teus pais terem lhe concebido?”

Hsiang-yen ficou pasmo, sem saber o que dizer. Pediu licença e foi para seu quarto, e procurou em todos os textos e conceitos uma resposta para a estranha questão. Não foi capaz, e voltou ao outro monge. Pediu-lhe para ensinar sobre o sentido do que quis dizer, e Kuei-shan perguntou:

“Sinto muito, mas nada tenho a lhe dar. Tu sabes mais do que eu, e se nós debatêssemos com certeza eu ficaria em dificuldades. Tudo o que eu lhe pudesse dizer pertence às minhas descobertas pessoais e jamais poderia ser teu”.

Hsiang-yen ficou desapontado e achou que o monge mais velho lhe estava escondendo algo deliberadamente. Resolveu partir do templo, e buscar o conhecimento através dos livros e conceitos, pois achava que na verdade o seu conhecimento não era suficiente, e por isso o outro não quis lhe responder. Foi morar em um eremitério e passou a estudar com afinco.

Após vários anos, achando-se suficientemente conhecedor dos conceitos budistas, voltou a Kuei-shan. Este, quando ouviu suas doutas explicações e sua solicitação por orientação, apenas sorriu e nada disse. Virou-se e foi embora.

Hsiang-yen ficou irritadíssimo. Naquele momento tomou uma decisão, destruiu todos os seus textos e resolveu desistir dos estudos, ainda que já fosse um grande intelectual. Ele pensou:

“Qual a utilidade de estudar o budismo, se este é tão sutil e se é tão difícil receber instruções de outrem? Serei agora um simples monge praticante, e desisto de entender qualquer coisa!”

Abandonou o templo e suas cercanias, construiu uma cabana próxima à sepultura de Chu, o Mestre Nacional de Nan-yang, e passou a viver uma vida simples longe dos estudos e questões.

Certo dia, estava varrendo o chão de sua casa quando a vassoura tocou numa pedrinha, que rolou e bateu em um bambu. Em meio ao silêncio, o som ecoou suavemente. Ao ouvir este som, Hsiang-yen experimentou o Satori, e finalmente compreendeu o que tinha lhe dito Kueishan.

Ele então se ajoelhou e silenciosamente fez uma reverência de agradecimento ao sábio monge.

 

 Contos Zen – Aoi Kuwan

Shin-kung perguntou a um dos seus mais inteligentes monges:

“Podeis capturar o Vazio?”

“Sim, senhor”, replicou ele.

“Mostrai-me como fazes”, pediu o mestre.

O monge abriu os braços e açambarcou o espaço vazio. Shin-kung disse:

“É essa a maneira? Apesar de tudo, não capturou coisa alguma”.

“Então”, replicou o monge um tanto ofendido, “qual é o método que usas?”

O mestre segurou o nariz do aluno e deu um forte puxão. O rapaz gritou:

“Aaiii! Estás puxando com muita força! Está me machucando!”

O mestre replicou:

“Perfeito! Essa é a maneira de realmente capturar o Vazio!”

 Contos Zen – Aoi Kuwan